Tertúlia Literária e Saramago

Uma vez por mês, nos reunimos na casa de algum amigo para conversar sobre um livro literário. Somos um pequeno grupo que compartilha o fascínio pelos livros. Nossas reuniões se iniciaram em 2016 a partir de um projeto de extensão criado por mim na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás. O projeto foi tão bom que mesmo após o seu fim resolvemos dar continuidade fora da Universidade.

A Tertúlia Literária tem mantido as diretrizes iniciais de discutir clássicos da literatura universal e da literatura brasileira, e buscar, a partir daí, formas de compreender a subjetividade humana e o contexto cultural no qual as obras foram produzidas.

A Tertúlia funciona assim: a cada mês um livro é escolhido e no mês seguinte nos reunimos para conversar sobre esse livro. O último livro escolhido em dezembro de 2018 para ser discutido em fevereiro de 2019 foi “A Caverna” do genial Saramago. Após a discussão, alguns dos tertulianos produziram um pequeno texto sobre suas impressões da obra para que elaborássemos um texto coletivo que segue abaixo.

Saramago, Algor e a caverna

por Priscilla Lima, Pedro Sahium, Rosana Lobo Sahium, Luiz Carlos Mendes, Gentil Pio e Tânia Borges

Escritor tardio (começou a escrever depois dos 60 anos), ateu, comunista, dono de uma inteligência brilhante e de um humor refinado, Saramago é tão interessante quanto seus livros. Antes de nos reunirmos para discutir “A Caverna”, mergulhamos em um documentário – “José e Pilar” – para conhecer melhor o escritor José Saramago. Esse documentário registra o dia a dia do escritor e o seu amor por Pilar, jornalista espanhola com quem casou e foi feliz.

Saramago tem uma escrita diferente. Ele tem um estilo que surpreende. E não só na literatura. Quando foi avisado que era ganhador do prêmio Nobel de Literatura, em outubro de 1998, estava no aeroporto de Frankfurt voltando para Madrid. Estava sozinho, os autofalantes chamaram seu nome e uma mulher lhe anunciou que um jornalista estava tentando lhe falar. O jornalista se aproximou e lhe disse que naquele momento fora anunciado pela Academia Sueca o ganhador do Nobel de Literatura do ano de 1998, e ele, José Saramago, era o vencedor da honraria. Mais tarde Saramago recorda que no saguão do aeroporto ele só pensava em Pilar del Rio, sua mulher, e sentia-se triste por não estar com ela naquele momento… E emenda: “A alegria, se se está sozinho, é nada”.

E esse é um dos temas que perpassa “A Caverna”. O enredo do livro retrata a vida de Cipriano Algor, um oleiro já velho, sua filha Marta e seu genro. Aos poucos, outros personagens vão surgindo – Isaura Estudiosa e o cão Achado. O caráter imaginário e irônico do escritor nos chamou a atenção. Sua crítica ao sistema social e econômico atual demonstra como o capitalismo acaba por transformar a vida num simulacro. O personagem Cipriano Algor, transferido de sua casa, morando no “Centro”, tem um insight de que está a viver num mundo de sombras, ou, talvez, de “escravidão sem mestre”, um “sistema impessoal” que a todos acorrenta. Cipriano Algor, oleiro de profissão, modelador de barro, criador, entretanto, não ficará impassível.

“A Caverna” mescla romance e filosofia. Vidas que caminham lentamente e se transformam repentinamente. Na cidade imaginária, existem o “Centro”, e os arredores, conduzindo a diversas interpretações, conforme quiser o leitor. No Centro tudo funciona mecanicamente, sem a luz do sol, como uma sociedade fechada em torno de si mesma, sustentada por valores materiais, com os seus habitantes sob rígidas regras, mas cercados de prováveis conforto e segurança.

Poderia ser o mundo “atual”, com as suas modernidades inacessíveis à boa parte da população? Ou seria o consumismo dos que podem arcar com os seus custos, tendo a flutuar ao redor os que vivem apenas com o mínimo para a subsistência, ou nem sobrevivem? Teria algo e ver com os chamados “sistemas” ou “mercados”, agentes invisíveis (e insensíveis), que de alguma forma escravizam os seres humanos? Ou poderia ser exemplificada ou simplificada pelos conglomerados comerciais, habitualmente chamados de shoppings (estrangeirismo crescente no país), que a cada dia mais se transformam em cidadelas dentro das cidades? Ou seria mais do que tudo isso? Ou nada disso?

De outro lado, “flutuando” nos arredores do Centro, pessoas comuns, na labuta diuturna, resignadas com os seus limites, postos ou impostos pelas circunstâncias. São seres quase invisíveis, mas humanamente sensíveis. Seriam as legiões de pessoas sem acesso ao mundo do consumismo? Ou excluídas do que se definiu como “sociedade”? Ou as que preferem a liberdade plena? Ou outras hipóteses? Fica a critério do leitor.

São bem diferenciados na obra, os que moram e os que não moram no Centro. Os que não moram, podem lá vender o que produzem, atendidas as rigorosas regras de revenda e exclusividade. Os que moram no Centro, “valem quanto pesam” (lembrança do antigo sabonete), pelo que produzem. Há também os que comandam a vida e o funcionamento do Centro, mas não se vislumbra sua origem. É como se fosse etéreo.

Fora do Centro, um tipo de subúrbio, as pessoas tomam formas, nomes e profissões, surgindo dramas individuais e familiares. Cipriano Algor, um oleiro de 64 anos, viúvo, vivencia dramas comuns a inúmeras outras pessoas – ele vê a sua profissão desaparecer por força do progresso, do capitalismo, das inovações tecnológicas. Em resumo: Cipriano vê as peças de barro de produz – pratos, bilhas, cântaros – serem substituídos por outras, de plástico, mais baratas, mais duráveis. O produto artesanal que produz deixa de ser atrativo aos consumidores do Centro. Utensílios de barro não conseguem competir com a durabilidade do plástico. Cipriano, já velho, precisa se reinventar para poder sobreviver. O genro começa a lhe pressionar para que se mude para o Centro com ele e Marta.

Razões diferentes, mas conexas, levam a família do oleiro Cipriano Algor a morar no Centro. O genro, para satisfazer uma realização profissional – conseguiria uma promoção no trabalho como vigilante –, Marta, para acompanhar o marido, e o oleiro, por falta de opção e a contragosto. A contragosto por vários motivos – Cipriano é muito ligado à tradição familiar, à olaria que sempre pertenceu à sua família. Ele não quer se distanciar da olaria, da sua vizinha e nova amiga Isaura, com quem deixa tristemente o cachorro Achado, seu companheiro.

Por vários momentos, Saramago nos faz refletir sobre a velhice e como a sociedade a considera. A consciência das próprias limitações e da própria transitoriedade da vida leva Cipriano e o narrador a afirmar que: “É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe.” Permeando esse drama – da necessidade de se mudar para o Centro para garantir a sobrevivência – surgem outros: o amor ao entardecer da vida, na viuvez; as alegrias e os problemas familiares; a convivência entre pais e filhos; e a estima cativada pelo animal doméstico.

José Saramago nos leva a caminhar com a angústia de um personagem que observa e se sente vítima das mudanças do mundo que evolui na indústria e na tecnologia desprezando o mundo real, a criação e a expressão do ser humano. O desenrolar da história nos coloca cara a cara com os avanços da Modernidade que provocam um paradoxo às questões existenciais e frustrações do Ser Humano! 

Após a mudança para o Centro, Cipriano tenta continuar vivendo. Mas é uma vida permeada por angústia. No Centro, o oleiro é mais um no meio de tantos outros. Ele se percebe um homem impotente, que passa a ser apenas um expectador, perdendo sua capacidade de sonhar, sua função de agente criador e transformador. O ápice de sua angústia existencial se dá diante da entrada em uma caverna.

Dentro da caverna, Cipriano se depara com o que pode ser entendido como um espelho de sua vida futura no Centro: ele se depara com esqueletos virados para a parede. O romance nos remonta ao mito da Caverna de Platão: “Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros. São iguais a nós” (PLATÃO, República, Livro VII). Nesse momento, na caverna, o oleiro se defronta com sua realidade que lhe era intragável e com a qual deveria se conformar e passar o tempo que lhe restava na vivência constrangida daquele ambiente. Diante disso, ele conclui: “Não sei, mas depois de os ver fiquei a pensar que talvez o que realmente não exista seja aquilo a que damos o nome de não existência”.

Estar na caverna implica em perder a sensibilidade, a percepção, a capacidade de ver com os olhos da alma. Estar na caverna significa perder a capacidade de sonhar e desejar para viver preso às sombras do medo e da opressão. “Morrer atado à pedra!”.

O personagem de Saramago, Cipriano Algor, desperta do pesadelo sufocante provocado pela ambição do capitalismo para se reencontrar; para se entregar aos seus desejos, seus sonhos, seu amor! Encerrando-se assim uma trajetória de angústia e sofrimento para compreender o verdadeiro sentido da vida, para se permitir amar e ser amado e então sonhar novamente. “Cipriano Algor saiu da furgoneta como se entrasse num sonho”.

Ele tem uma espécie de revelação – decide-se não se conformar com essa não-vida no Centro e partir. Junto à sua família, ele volta e se reencontra com sua vizinha e seu cão. Juntos, decidem por tomar outro rumo, iniciando uma viagem com destino incerto. Conseguirão encontrar as suas aspirações? Talvez essa partida represente o eterno dilema humano, na procura “dessa tal felicidade”. Acontece, então, o seu encontro com a sua amada Isaura Madruga e com a vida!

É preciso reconhecer que às vezes devemos tomar outros rumos, refazer caminhos, desbravar e aventurar. E por assim ser, sigamos juntos nossa viagem ainda na furgoneta de Cipriano, que mesmo sem um destino certo, segue, mas segue na certeza de já ter Achado.

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