Tempus fugit… carpe diem

Somos seres temporais. O tempo além de demarcar nossa entrada, nosso percurso e nossa saída da vida, é a partir dele que nosso psiquismo se organiza. O período de intervalo entre as mamadas e a rotina do dia, ajuda o bebê a demarcar, aos poucos, o dentro e o fora, o eu e o outro, a presença e ausência.

Mas nossa percepção do tempo é também baseada na castração, no corte. O tempo é percebido como algo fugidio, já afirmava Santo Agostinho. Sei o que é o tempo, ele ressalta, mas quando me perguntam sobre o que é o tempo, eu já não sei responder (Santo Agostinho, 397/2001, Livro XI).

O poeta Quintana (1983/2011), em “Seiscentos e sessenta e seis”, retrata de forma bem tocante sua percepção do tempo e da vida:

A vida é uns deveres que nós
trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas:
Há tempo…
Quando se vê, já é 6ª feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma
outra oportunidade,
Eu nem olhava o relógio
Seguia sempre, sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho a casca
dourada e inútil das horas.

A imagem de Cronos, o deus grego que engolia seus filhos ao nascer, é a imagem que temos do tempo e sua passagem. Ele deixa suas marcas, no corpo e no psiquismo. É um tempo cadenciado, marcado pelo ritmo, continuidade e previsibilidade. Minutos, horas, dias, semanas, meses que passam, recomeçam e vão levando nossa juventude.

Marcamos nossas vidas através desse tempo cronológico. É um tempo quantificado que, com sua exatidão, exclui de seu domínio as dimensões imensuráveis da vida. Tempo comprimido e sem espaço para as trocas afetivas. Tempo da pressa e da produtividade. Tempo do capital.

Mas, na mitologia grega, existe uma outra imagem do tempo – a do semideus Kairós. No grego, Kairós representa o tempo da libertação das amarras de Cronos, um tempo abstrato e subjetivo. Araújo (2001) descreve esse tempo como sendo o tempo vivido “visceralmente no calor das experiências encharcadas do húmus da vida. O tempo transversal saboreado nas tragédias e comédias do devir, tingido com as dores e os prazeres que movem e temperam a existência humana”.

Kairós muito se aproxima da ideia de Walter Benjamin sobre a experiência decorrente das narrativas construídas coletivamente nas sociedades artesanais. É no fazer do dia-a-dia, quando velhos e jovens trabalhavam, que as histórias, estórias e memórias eram compartilhadas. E as relações afetivas eram sedimentadas. Rubem Alves afirma que o Kairós mede a vida pelas pulsações do amor, e não pelo movimento da utilidade de Cronos.

Mas estamos inseridos em mundo regido pelo capital que apregoa que ‘tempo é dinheiro’, e ambos são sempre insuficientes. Toda a identidade social, nesse contexto, é marcada pela busca por mais tempo para se produzir mais para se comprar mais.

Em entrevista, Mujica ressalta que o tempo, na verdade, não é dinheiro. Pelo contrário, tempo é a vida. Portanto, é fundamental a compreensão de que todo dinheiro pago pelo trabalho, é dinheiro pago pelo tempo de vida que gastamos no trabalho de produzir algo.

Nesse sentido e diante da percepção constante de que o tempo foge, a expressão Carpe diem nos aponta um caminho de usufruto do que se tem e de construção de um futuro baseado no trabalho do presente e no que se é. Diante da castração do tempo que passa e nos exige constantemente produtividades, é necessário repensarmos nossa relação com tempo e como usufruímos da vida e das pessoas que nos cercam.

Há algum tempo, publiquei aqui um texto do Rubem Alves que retoma uma história chinesa dos morangos, cuja moral é: “É melhor cair no abismo vazio de barriga cheia de morangos do que com a barriga vazia”. Compreendo esse aforismo para além da ideia do imediatismo. Diante da certeza da morte, cabe a nós usufruir e construir pequenos momentos de felicidade que encontramos junto às pessoas que nos importam.

Sei que parece auto-ajuda… Mas, se refletirmos que só conseguimos ser fortes quando estamos acompanhados, percebemos que dedicar tempo para fortalecer nossos vínculos com o coletivo é o que nos pode auxiliar a resistir.

Carpe diem, para além da ideia hedonista à qual normalmente está associada, fala de ‘colher o dia’. Colheita se faz após um longo tempo de preparação da terra, de plantio e de espera. Nada melhor que esse trabalho seja realizado junto com outras pessoas. Que seja uma construção coletiva. Benjamin ressalta que, na Modernidade, o coletivo se enfraqueceu e prevaleceu o individualismo e, consequentemente, a solidão… O coletivo pode, assim, ser o que nos protege contra a angústia da efemeridade do tempo, contra a perversidade do imperativo do consumo e da produtividade, e contra a solidão…

Referências bibliográficas:

Araújo, M. A. (2001). A dança no tempo na poética do Kairós. Ideação, 7, 91-104.

Alves, R. (2009). Desfiz 75 anos. Campinas, SP: Papirus.

Benjamin, W. (1987). Experiência e pobreza. Em, W. Benjamin, Obras escolhidas. Vol. 1. (3 ed., pp. 114-119). (S. Rouanet, Trad.). São Paulo: Brasiliense. (Obra original publicada em 1933).

Quintana, M. (2011). Antologia poética. São Paulo: Globo. (Obra original publicada em 1983).

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