Leituras da Quarentena – conto#5 – “Verba testamentária” (Machado de Assis, 1882)

“… Item, é minha última vontade que o caixão em que o meu corpo houver de ser enterrado, seja fabricado em casa de Joaquim Soares, à Rua da Alfândega. Desejo que ele tenha conhecimento desta disposição, que também será pública. Joaquim Soares não me conhece; mas é digno da distinção, por ser dos nossos melhores … Continue lendo Leituras da Quarentena – conto#5 – “Verba testamentária” (Machado de Assis, 1882)

As relíquias atuais do Brasil de sempre

por Priscilla Lima A realidade brasileira não se alterou muito dos fins do século XIX até a atualidade. Ainda vemos o racismo, a pobreza e a violência se manifestarem abertamente nas ruas, nas escolas, nas empresas, no cotidiano. Situações de crise fazem com que essa realidade se escancare de forma mais evidente, e revela o … Continue lendo As relíquias atuais do Brasil de sempre

Leituras da Quarentena conto#4 – “Pai contra mãe” (Machado de Assis, 1906/2007)

A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes … Continue lendo Leituras da Quarentena conto#4 – “Pai contra mãe” (Machado de Assis, 1906/2007)

Espelhos e a trajetória do opressor

por Priscilla Lima “Cuidado!”, nos alerta Mario Quintana, “A nossa própria alma apanha-nos em flagrante nos espelhos que olhamos sem querer” (1973/1995, p. 5). Mas não há como escapar deles, pois estão constantemente presentes na alteridade. Melhor dizendo, eles são o fundamento da alteridade. Busco, no olhar do outro, o reflexo de quem sou. Uma … Continue lendo Espelhos e a trajetória do opressor

Leituras da Quarentena – conto#3 – “O espelho – esboço de uma nova teoria da alma humana” de Machado de Assis (1882/2007)

Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as … Continue lendo Leituras da Quarentena – conto#3 – “O espelho – esboço de uma nova teoria da alma humana” de Machado de Assis (1882/2007)

“Acredito, logo existe”

Reflexão a partir do conto de Machado de Assis, "O segredo do bonzo" (1882/2007) (para ler o conto, acesse aqui ou aqui) por Priscilla Lima As narrativas têm um poder enorme sobre nossas subjetividades. “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”, … Continue lendo “Acredito, logo existe”

Leituras da Quarentena – conto#2: “O segredo do Bonzo” (Machado de Assis, 1882/2007)¹ ²

O SEGREDO DO BONZO - CAPÍTULO INÉDITO DE FERNÃO MENDES PINTO por Machado de Assis Atrás deixei narrado o que se passou nesta cidade Fuchéu, capital do reino de Bungo, com o Padre-mestre Francisco, e de como el-rei se houve com o Fucarandono e outros bonzos, que tiveram por acertado disputar ao padre as primazias … Continue lendo Leituras da Quarentena – conto#2: “O segredo do Bonzo” (Machado de Assis, 1882/2007)¹ ²

Pandemia e a desumanização

Resenha do conto #1 da quarentena ("Na arca", de Machado de Assis) por Priscilla Lima Em seu texto de 1930, “Mal-estar na civilização”, Freud faz uma análise acerca da civilização humana. No início do primeiro capítulo, ele cita a seguinte frase de Grabbe, um dramaturgo alemão: “Para fora do mundo não podemos cair” (1930/2010, p. … Continue lendo Pandemia e a desumanização

Leituras da quarentena – Conto#1-“Na arca: três capítulos inéditos do Gênesis” (Machado de Assis, 1878-1882)

Estamos em quarentena há 48 dias. Como forma de suportar toda a angústia despertada por tamanho desamparo, a leitura de textos literários tem me ajudado bastante. Resolvi, há 3 dias, mergulhar nos contos de Machado de Assis. Sua ironia e crítica mordaz da sociedade, nos ajuda a refletir sobre questões sociais e acerca da condição … Continue lendo Leituras da quarentena – Conto#1-“Na arca: três capítulos inéditos do Gênesis” (Machado de Assis, 1878-1882)

Dostoiévski parte 1 – Os irmãos Karamázov

por Sostenes Lima (https://www.sosteneslima.com/) Amig@s, compartilho com vocês uma experiência de leitura que vivi no último mês. Acabei de terminar a leitura de “Irmãos Karamázov”, de Fiódor Dostoiévski (1880/2012). Para muitos é o maior livro de literatura já escrito. Faz tempo que eu queria ler esse livro. Resolvi fazer isso como parte das atividades da … Continue lendo Dostoiévski parte 1 – Os irmãos Karamázov

Machado de Assis e a oligarquia brasileira – do Império e de hoje

Por José Carlos Ruy* Retirado do site: http://www.vermelho.org.br O grande escritor Machado de Assis (1839-1908), cujo falecimento completa 111 anos neste 29 de setembro, descreveu de forma atenta, e muitas vezes cruel, a oligarquia brasileira. Em sua obra, o pensamento e a ação daquela oligarquia de donos de terras, de escravos e do dinheiro, manipuladores … Continue lendo Machado de Assis e a oligarquia brasileira – do Império e de hoje

Tempus fugit… carpe diem

Somos seres temporais. O tempo além de demarcar nossa entrada, nosso percurso e nossa saída da vida, é a partir dele que nosso psiquismo se organiza. O período de intervalo entre as mamadas e a rotina do dia, ajuda o bebê a demarcar, aos poucos, o dentro e o fora, o eu e o outro, … Continue lendo Tempus fugit… carpe diem

A INDÚSTRIA CULTURAL: O ILUMINISMO COMO MISTIFICAÇÃO DE MASSAS – MAX HORKHEIMER E THEODOR ADORNO

Territórios de Filosofia

A INDÚSTRIA CULTURAL: O ILUMINISMO COMO MISTIFICAÇÃO DE MASSAS.

MAX HORKHEIMER E THEODOR ADORNO.*

A tese sociológica de que a perda de apoio na religião objetiva, a dissolução dos últimos resíduos pré-capitalistas, a diferenciação técnica e social e a extrema especialização, deram lugar a um caos cultural é cotidianamente desmentida pelos fatos. A civilização atual a tudo confere um ar de semelhança. Filmes, rádio e semanários constituem um sistema. Cada setor se harmoniza em si e todos entre si. As manifestações estéticas, mesmo a dos antagonistas políticos, celebram da mesma forma o elogio do ritmo do aço. As sedes decorativas das administrações e das amostras industriais são pouco diferentes nos países autoritários e nos outros. Os palácios colossais que surgem de todas as partes representam a pura racionalidade sem sentido dos grandes cartéis internacionais a que já tendia a livre iniciativa desenfreada, que tem, no entanto, os seus monumentos nos…

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Tertúlia Literária e Saramago

Uma vez por mês, nos reunimos na casa de algum amigo para conversar sobre um livro literário. Somos um pequeno grupo que compartilha o fascínio pelos livros. Nossas reuniões se iniciaram em 2016 a partir de um projeto de extensão criado por mim na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás. O projeto foi … Continue lendo Tertúlia Literária e Saramago

O Silmarillion – esperança e resistência em meio às trevas

por Priscilla Melo Ribeiro de Lima O Silmarillion, escrito por Tolkien e publicado após sua morte, traz em seu escopo diversas histórias que vão se entranhando e se articulando. Desde o relato da criação da Terra por Ilúvatar, até sua quase completa devastação promovida por Melkor/Morgoth. Nessa saga dos primórdios da criação do mundo e … Continue lendo O Silmarillion – esperança e resistência em meio às trevas

Pra não dizer que não falei das flores

por Geraldo Vandré Caminhando e cantando E seguindo a canção Somos todos iguais Braços dados ou não Nas escolas, nas ruas Campos, construções Caminhando e cantando E seguindo a canção Vem, vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz a hora Não espera acontecer Pelos campos há fome Em grandes plantações Pelas ruas … Continue lendo Pra não dizer que não falei das flores

Apesar de você

por Chico Buarque Hoje você é quem manda Falou, tá falado Não tem discussão, não A minha gente hoje anda Falando de lado E olhando pro chão, viu Você que inventou esse estado E inventou de inventar Toda a escuridão Você que inventou o pecado Esqueceu-se de inventar O perdão Apesar de você Amanhã há … Continue lendo Apesar de você

O maldoso gavião

por Ana Gabriela Lima Eu gostei muito de trazer minha redação escolar aqui da última vez, então aqui está outra proposta de redação que eu fiz e gostei do resultado. A proposta era fazermos uma fábula, com a moral da história sendo “Quem planta limão, não colhe laranja”. Eu fiz sobre um gavião... O maldoso … Continue lendo O maldoso gavião

Esboçando

por Ana Gabriela Lima A vida. Algo passageiro; Mas que é bom, é. Todos vivemos a vida Como delicadas borboletas. Vemos aqui, paramos ali. Mas, estamos sempre no caminho. E claro, Deus ali Observando tudo; Nos esperando na porta Que nos levará a um lugar mais bonito; Com mais belas e amadas borboletas. Lá, viveremos … Continue lendo Esboçando

‘J. R. R. Tolkien – senhor da fantasia’: ressalvas

por Priscilla Lima Publicada originalmente em 2001 na Inglaterra, a biografia “J. R. R. Tolkien, o senhor da fantasia” (“Tolkien: a biography”, no original) foi publicada, no Brasil, em 2013 pela editora Darkside. Essa editora nasceu em 2012 com o objetivo de alcançar um nicho ainda pouco investido no Brasil – o do terror e … Continue lendo ‘J. R. R. Tolkien – senhor da fantasia’: ressalvas

Jane Austen, as mulheres e eu

por Priscilla Lima Li “Orgulho e preconceito” e “Razão e sensibilidade” no início dos anos 2000 quando chegava à vida adulta. Me apaixonei por Austen. Sua escrita é leve e fluida – não é à toa o fato de ser uma das escritoras imortais da literatura universal e um dos ícones da literatura e cultura … Continue lendo Jane Austen, as mulheres e eu

Casas de Hogwarts – Lufa-Lufa

por Ana Gabriela Lima Essa casa, como todas as outras (Grifinória, Sonserina e Corvinal), recebeu seu nome em homenagem ao seu fundador, neste caso, fundadora, Helga Hufflepuff. Esta mulher foi a fundadora da Lufa-Lufa, em inglês, Hufflepuff, em homenagem ao seu sobrenome. Helga valorizava, nos alunos de sua casa, a Lealdade, a Justiça, o Trabalho … Continue lendo Casas de Hogwarts – Lufa-Lufa

Morte, vida e morangos à beira do abismo

por Priscilla Lima Em julho de 2014, morria Rubem Alves, educador e escritor mineiro. Nascido em 1933, em Dores da Boa Esperança, sul de Minas Gerais, Rubem Alves se consolidou como crítico e teorizador da educação, escritor de fábulas infantis, e cronista com vasta produtividade, principalmente após os 60 anos de idade. Além disso, sua … Continue lendo Morte, vida e morangos à beira do abismo

Duplo angustiante de mim

por Priscilla Lima A questão do duplo, tão trabalhada na literatura universal, é fator fundante na nossa subjetividade. Moreno, psiquiatra e fundador do Psicodrama, afirma que já no começo da vida precisamos de um ‘ego auxiliar’ – uma espécie de ego duplicado do bebê – para que nos desenvolvamos e nos tornamos de fato ‘humanos’ … Continue lendo Duplo angustiante de mim

Ainda não…

por Priscilla Lima Em fins de maio desse ano, participei de uma banca de defesa de tese de doutorado que tratava da questão da ambivalência em alguns contos de Guimarães Rosa. A leitura e análise da tese me remeteu a algumas questões que compartilho aqui. Estudar questões essencialmente humanas a partir da literatura não é … Continue lendo Ainda não…

Cora e os becos de Goiás[i]

por Priscilla Lima Nos Poemas dos becos de Goiás, publicados em 1965, Coralina elege como tema personagens e paisagens totalmente esquecidas e silenciadas pela vida urbana. Os becos e seus objetos comuns são poetizados: Espólio da economia da cidade. Badulaques: Sapatos velhos. Velhas bacias. Velhos potes, panelas, balaios, gamelas, E outras furadas serventias Vêm dar … Continue lendo Cora e os becos de Goiás[i]

Do sofrimento se faz felicidade

por Priscilla Lima “A medida da vida”, biografia de Virginia Woolf de Herbert Marder, publicada pela Cosac Naify em 2011, é um livro primoroso. Assim como todos os livros da Cosac, o trabalho editorial ficou belíssimo. A capa, com uma foto do rosto de Virginia em tons esverdeados e cinza, possui um aspecto belo e … Continue lendo Do sofrimento se faz felicidade

Poiesis de si

Nesse primeiro post, gostaria de retratar algumas questões levantadas por Aristóteles em “Poética” e no livro VI de “Ética a Nicômaco”. Em sua análise acerca da poesia, Aristóteles ressalta que, diferentemente do historiador, o poeta imita a vida e imita ações. Assim, ao imitar a vida, sua função não é recontar o que aconteceu mas o que poderia acontecer, o que é possível. O poeta recria, dessa forma, a realidade e enuncia verdades universais. A poiesis – cujo sentido se assenta na criação e na fruição estética – aponta para um posteriori, mesmo se baseando em algo que já aconteceu. A elevação e a filosofia da poesia, apontadas por Aristóteles, se fazem presentes justamente na capacidade do escritor em transformar o passado e o presente em possibilidades de recriação do futuro (...)